terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dor de cotovelo


Enquanto alguns só têm olhos para o próprio umbigo, perco-me em reflexões com meus cotovelos. Literalmente. Fico imaginando de onde Deus tirou a idéia. Apêndice serve para cirurgião treinar a técnica. Calcanhar mostrou a que veio no gol de Sócrates na Copa de 82. Ajoelhou, tem que rezar. Cotovelo já começa mal pelo nome – e cúbito, o termo técnico, não melhora muito a coisa.


Cotovelos sempre foram meu tendão de Aquiles. Nas lembranças da infância, eles se acotovelam em ensinamentos maternos: “Tire os cotovelos da mesa”, “Só se coça os ouvidos com o cotovelo”, “Não se pode apagar com o cotovelo o que se escreveu com a mão”. Por causa deles, nunca obtive uma aprovação plena pós banho: quem acha que lavar cotovelos é fácil está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

Na adolescência, cismei que os meus precisavam ser macios – e dá-lhes hidratante e almofadinha de apoio na hora do estudo! Grande bobagem. Gosto é que nem cotovelo, cada um tem o seu, mas nunca conheci alguém que tivesse fetiche por eles. Quem já ouviu falar do cotovelo de Helena, cuja beleza destruiu Tróia? Ou dos cotovelos da Sharon Stone? Vênus de Milo nem os tinha. Ainda assim, por causa de um cotovelo quebrado curti a primeira dor-de-cotovelo: não joguei a final do torneio interescolar de handball e as meninas do Estadual Central, por quem todos os garotos da minha escola eram fascinados, levaram o ouro. Não que eu fosse boa jogadora, mas mordi os cotovelos de inveja. E nunca esqueci a traição. Não foi difícil: até hoje, quando o tempo esfria, o tal cotovelo quebrado dói para me lembrar do episódio.

Só quem experimentou, na pele os transtornos psíquicos que uma pontiaguda dor-de-cotovelo provoca - e chorou por alguém perdido em algum cotovelo do mundo - sabe como dói fundo na alma. Quem souber o segredo anatômico que me explique: por que o pé na bunda dói no cotovelo? Sei lá, só sei que a gente faz cada coisa irracional que parece que o cotovelo foi parar no cérebro. Haja bar, lenço de papel e música de fossa cubital. E dor de cotovelo crônica só cai bem nos versos de dupla sertaneja.

Tem gente que fala pelos cotovelos e sai emendando um assunto no outro - nessa hora, o cotovelo do ouvinte incauto serve para apoiar a cabeça exausta, que finge interesse. Cotovelos e parapeitos de janelas são insuficientes para os que gostam de discorrer sobre a integridade moral dos passantes – dá vontade de falar: "Ora, vá cuidar dos cotovelos!"

Cotovelos são armas de torque poderoso como um martelo. Criam calos. Esfolam. Dão choque. Dão banana em gesto de ofensa. Puem a manga dos casacos. Servem para motoqueiro pendurar capacete e consumistas, sacolas. Acotovelam-se em centros comerciais às vésperas de datas festivas. Proliferam, exponencialmente, em dias chuvosos. Irritantes, são perfeitamente dispensáveis.

Há uns dois meses, quando voltei a praticar tênis, após 15 anos afastada do esporte, passei a sentir uma dor articular renitente e progressiva. Hoje, no ortopedista, recebi o diagnóstico: cotovelo-de-tenista, doença em que há esgarçamento da articulação e cujo tratamento é antiinflamatório e repouso.

Além de terem vida exterior autônoma ( para os tímidos como eu, em situações de desconforto social sempre sobram cotovelos), os meus também têm vida interior e agora decidiram que precisam descansar.

Cotovelos abraçam, é verdade, mas um abraço compensa tanta chateação?

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2 comentários:

Mirze Souza disse...

Maria Paula!

Já pensei tanto sobre isso que cansei. Qual a importância de certas partes, como por exemplo o cotovelo.
Como nunca senti dor, nem transtorno de tenista começarei a lavá-los muito bem. Tão desprezados.... Precisam chamar atenção.

Beijos

Mirze

Cynthia Osório disse...

vixe, me deleitei nessa crônica, bom humor e criatividade não faltaram!