sexta-feira, 25 de setembro de 2009

até que a morte nos separe


maior que medo de doença
é que nesta farsa ensaiada
meu papel de improviso
( haja caco!)
não convença

um dia acordo com a macaca
vou catar coquinho
chutar o pau da barraca
recolher os cacos

e igual ao (seu) peru
morrer de véspera

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Amor e sexo


Amor e sexo andam juntos feito Cosme e Damião.

Amor é público; sexo, privado. Amor é poupança, sexo é mercado de ações. Se o amor promete mundos; sexo não garante fundos.

O amor é avaro; sexo, luxúria. Amor cobra, sexo cega. Amor requer química. Sexo é pura alquimia. O amor, oceano, afoga em vaga; sexo, contingente, procura lume. Amor é coca, sexo cola. Amor não correspondido dá bode. Sexo é expiatório. Sexo tem ponto G. Tem amor em ponto com, mas o gostoso mesmo é cara a cara. Porque aí o sexo coroa.

Todo amor marca. Sexo é patente. Amor é bom, mesmo que o sexo não seja lá nenhuma Brastemp. E vice-versa. Amor é Mastercard, coisa que o dinheiro não compra. Sexo (a)Visa: porque a vida é agora. Amor é Avon, a gente conversa, a gente se entende. Sexo é Boticário: você pode ser o que quiser. Amor e sexo juntos, Wallita faz com carinho.

Amor gera ais. Sexo põe pingos nos is. Males de amor são graves; de sexo, agudos. Amor quer ter Razão. Sexo é pura Sensibilidade. Amor inspira, sexo transpira. O amor transcende. Sexo, às vezes, é acidente. O amor, metáfora, se declara em letras. Sexo, literal, na expressão. Sexo pode vir antes do amor. Procede, mas no Houaiss amor precede. O amor idealiza, sexo realiza. O amor é dito. No sexo, fica o dito pelo não dito.

O amor é grato; sexo, grito. O amor é mito; sexo, rito. Amor brota, sexo é a bruta flor do querer. Amor exige votos. Sexo deposita na urna. O amor é achado. Sexo perdido é irremediável. Amor sem sexo é platônico. Sexo sem amor é sindrômico. Amor sem sexo é meia dúzia. Sexo é meia nove. Amor sem sexo pode ser bom, meu bem. Sexo sem amor também.
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Amor é assim, sexo é assado. Sexo não tem pé, por amor perde-se a cabeça.
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Jabor é amor, prosa e poesia.
Sexo é Rita Lee, caso sério.

Amor é entrada; sexo, sobremesa. Ou é o inverso? Pouco importa se o prato principal é a vida.

E a vida... ah, a vida a gente vai levando como Deus quer.
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Temporal



1. QUENTE E ÚMIDO
férias no Rio, janeiro
o ano começa bem
tenho-te inteiro
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2. SÓ SE CHOVER CANIVETE
serpentina, confete...
te deixo solteiro
no dia 30, batuqueiro
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3. CHUVA ÁCIDA
águas de março
choro, mudança
pareço criança!
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4. CÉU DE BRIGADEIRO
amor que se abre
em abril
é pra sempre, viu?
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5. VENTO DOS PAMPAS
nós, o tango, triste ensaio...
mulheres cobram rebentos
na Plaza de Mayo
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6. BLUE MOON
não se esqueça
festa junina, flor de jasmim
e parabéns pra mim
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7. ONDAS DE CALOR
saudades daí...
pesca, mergulho
e eu, aqui, em julho
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8. VENTO, VENTANIA
no mês do pesar
solte-se, de prazer
com gosto
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9. EFEITO ESTUFA
onze de setembro, negro
o sete, verde-amarelo
no vinte, te espero
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10. PRECIPITAÇÃO
na Oktoberfest
perco de fogo
o anel que me deste
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11. TEMPO FECHADO
sem sinal, sem recados
a sós, Sweet November e eu
passamos Finados
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12. EL NINO
pedido ao Papai Noel
novo amor
( que o outro já foi pro beleléu)
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Sem olhar para trás


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se quiser, venha comigo
parto em busca da paz
a ser feliz me obrigo
mas não olho para trás

querendo, venha comigo
aproveite a paisagem
eu protejo do perigo
dou-lhe a mão e a coragem

se é que quer vir comigo,
aprenda a minha linguagem
pro amor não há castigo
nem é preciso blindagem

quando quiser vir comigo,
faça de mim hospedagem
do meu corpo, seu abrigo
não carece de bagagem

se não quiser vir comigo,
esqueça o sonho fugaz
do adeus te desobrigo
não mais olhe para trás


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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Coisas de mulher




Que mulher jamais aturou
reclamação de chefe mal humorado,
cantada de bêbado atormentado,
bronca de motorista mal educado
ou ciúme doentio de um namorado?

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Que mulher nunca sentiu dor
do bife tirado da cutícula,
de cotovelo, parto mental,
por ter feito papel de ridícula
ou pelo fim do caso virtual?

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Que mulher jamais ocultou
lágrimas de felicidade,
a sua verdadeira idade,
excesso de adiposidade
ou passar fome por vaidade?

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Que mulher nunca teve que dar jeito
numa meia desfiada,
numa amiga bandida,
numa relação falida
ou numa unha lascada?

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Que mulher jamais se culpou
pelo filhinho na escola menosprezado,
pela atitude do namorado safado,
por não ter ficado com o bico calado,
por bisbilhotar o celular do amado?

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Que mulher nunca
quis vir monge na próxima encarnação,
nem clamou estar farta de chateação?
Lá no fundo, pronta pro que der e vier
sente orgulho por se chamar Mulher.

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sábado, 15 de agosto de 2009

Divina comédia humana

NARCISA


Farta de juras eternas que esvaíam qual fumaça, lacrou ouvidos e coração.
Até que apaixonou-se. Perdidamente. Aquele sim era amor definitivo, ela pensava, admirando a imagem refletida no espelho. Que mulher, que personalidade, que corpo, que alma...
No início Deus resistiu, mas finalmente se rendeu às evidências.
Pela primeira vez na vida, Narcisa era verdadeiramente feliz. Num arremedo filosófico, Ele a justificou:
- O Homem não foi feito para viver só... Pena que tantos homens falem sem refletir. Já o espelho reflete sem falar.

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NAS NUVENS

Ela, de Marte; ele, de Vênus. O relacionamento, de lua, cheio de fases.
Ele, poeta e ela, a musa de seus versos encantados.
Um dia, a marciana se cansou do blablablá e deixou o poeta.
Foi viver logo com o Luís, cuja grosseria, definitivamente, não era deste mundo.
Deus a compreendeu:
- No princípio era o Verbo, mas um ato vale mais que mil palavras.

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ENCOSTO

Cismou com o espelho, esmurrou o caixa eletrônico, bateu boca no trânsito, dispensou o namorado. Chorou, putaquiparilizou geral, dormiu.
No dia seguinte, arrependida, pediu desculpas pelo destempero.
Só Deus Deusculpou: não era ela, era Ele. Precisava urgentemente rever as doses hormonais. Tudo na surdina, sem recall, para a Criação não ficar desmoralizada frente à mulherada.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Coisas da vida



Reação espontânea

Conheceram-se no laboratório. Ela, base forte; ele, ácido fraco.
Aplicaram entropia, ebulição, fusão.
Quando a re(l)ação saturou, separaram.
Faltou química.

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Pré-datado

Em prestações: o financiamento do carro, a escola do filho, a mensalidade da academia, a roupa nova.
Só o amor ali, a lhe exigir pagamento à vista.
E em espécie.

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Franco atirador

Era exímio no seu mister. Com tiros em salvas, mirava várias a um só tempo.
Certeiro, atingia o coração das vítimas.
Um dia, errou o alvo.
Ninguém foi ao enterro.
Isso é que dá abater quem choraria a nossa morte.

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terça-feira, 11 de agosto de 2009

curtos circuitos

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I - CHISTE


chispaste

dedo em riste

à procura de um horizonte

vago triste

a ver navios

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II - ECONOMIA


pra repor as energias

mais vale um vate de verve

que mil mega watts de Três Marias

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III - HELPLESS

vez por outra te enxoto

depois arrependo,

imploro, choro


fazer o quê

se quando te miro

me (m)olho?


domingo, 9 de agosto de 2009

Bandeira à mineira


vou-me lá pra Babilônia
ao sul da Mesopotâmia
planto jardins de begônia
suspensos em mar de infâmia

vou-me embora pra Polônia
ou quem sabe pra Tanzânia
driblo de vez minha insônia
torno Tirana em Albânia

vou partir pra Amazônia
adeus, linha litorânea
crio lá uma cerimônia
na floresta subterrânea

se nada disso der certo
transponho vales e monte
'inda que tarde liberto
este meu belorizonte

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