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domingo, 22 de janeiro de 2012

Grávida ao pé da letra




Ela chorava, de barriga cheia
Não sabia se engolia o sapo
 Ou pagava o pato sozinha.

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sábado, 21 de janeiro de 2012

Erra uma vez




Sua vida era um faz de contas.
A pagar.

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Narciso



Depois do brinde, conta-me sua vida.
Tim tim por tim tim.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Discutindo a relação


Sabe o que faz no restaurante aquele casal na mesa próxima à sua, um em frente ao outro sem se olhar, tocar ou conversar durante todo o jantar? O Homem e a Mulher silentes, que entram mudos e saem calados?


Discutem a relação. Telepaticamente.

Ela parte palitos em pedacinhos, compõe com eles desenhos geométricos na toalha, desmancha-os, derrama sal na mão, suja a mesa, recolhe tudo no cinzeiro. Se ao menos ousasse dizer o que devia ser dito...

Ele pensa no jogo de futebol. Amanhã tem clássico na TV. Se ao menos a quarta-feira chegasse logo....
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sábado, 30 de julho de 2011

Toque feminino



Tinha T.O.C e era cheia de não-me-toques.
Um dia se tocou e saiu da toca, enfim.
 Tocou o céu.
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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Why


"Mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende"
 João Guimarães Rosa




Ele pediu com olho guloso de admiração:
- Cê me ensina um pouco de poesia?

Ela achou graça do pedido:
- Pois ocê já não me deu uma estrela; não viajou no rastro de um avião; não me deu uma flor ainda úmida de orvalho?! Poesia não tem alfabeto, gente já nasce com ela no coração, sô.

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

carta fora do baralho


Vangloria-se de trocar de namorada como quem troca de camis(inh)a.
Não vê que descartáveis não são elas.
É ele.

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vulcão



meu monte em v

de Vênus e de vitória
em chamas
aguarda sem dramas
ou meia história
a brigada contra incêndio
do olimpo

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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sujeito composto




Era um homem singular.
Sempre referia a si na primeira pessoa do plural.
Até o dia em que perdeu a vós. 
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quarta-feira, 22 de junho de 2011

liberdade provisória


Era um sujeito que amava a Liberdade acima de tudo.
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Por Ela afastou-se da Verdade, de amigos e amores.
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Quando se tornou seu escravo, a Liberdade o abandonou.
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Terminou seus dias sozinho.

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Bem feito!
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terça-feira, 21 de junho de 2011

Vermelho



PRA QUEM (DIS)PUTA

Olho preto, soutien vermelho, unha escarlate.
Saia justa, curta. Salto dezoito.
A(l)ma translúcida.

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PRA DEPRÊ

Queria muito enxergar o mundo em technicolor.
O pranto teimava em minar, uterino.
Vermelho-ofuscante.

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PRA COLORIR

Dia branco, crepúsculo de inverno, noite cinza.
Comprou uma caixa de Red Bull.
Para a_cor_dar pra vida.

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sábado, 28 de maio de 2011

coisas da vida




Reação espontânea

Conheceram-se no laboratório. Ela, base forte; ele, ácido fraco.
Aplicaram entropia, ebulição, fusão.
Quando a re(l)ação saturou, separaram.
Faltou química.

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Pré-datado

Em prestações: o financiamento do carro, a escola do filho, a mensalidade da academia, a roupa nova.
Só o amor ali, a lhe exigir pagamento à vista.
E em espécie.

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Franco atirador

Era exímio no seu mister. Com tiros em salvas, mirava várias a um só tempo.
Certeiro, atingia o coração das vítimas.
Até o dia em que errou o alvo.
Ninguém foi ao enterro.
Isso é que dá abater quem choraria a nossa morte.

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sexta-feira, 18 de março de 2011

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho home




O primeiro era um galinha. Como ela dormia cedo, com as galinhas, ele aproveitava para ciscar fora do ninho - sabe como é, a galinha do vizinho é sempre mais gorda e de grão em grão a galinha enche o papo. Um dia o caldo entornou. Voou pena pra todo lado.

Quem não tem cão, caça com gato. Assim era o segundo, lindo e infiel. Dizem que à noite os gatos são parvos - deve ser por isso que ele nunca soube o pulo do gato.  Mas soube fazer dela gato e sapato. Gata escaldada, cansada de comer gato por lebre, um dia ela atirou o pau no gato. Santa dispensada, Mulher Gato.

Ela já estava matando cachorro a grito, num mato sem cachorro, quando finalmente encontrou o terceiro. Devotado, companheiro, previsível e estável como os cães, com uma carinha fofa e desolada de cachorro sem dono.  Ela domou o próprio gênio de cão para aproveitar melhor as delícias do cachorro quente. Felizes, foram morar na praia, isolados da civilização.

Viver neste mundo cão é, definitivamente, briga pra cachorro grande.

The end
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terça-feira, 15 de março de 2011

Papo de artista



O homem decepcionou quando conheceu a escritora.
A mulher na sua frente não chegava aos pés daquela cujas letras faziam-no sonhar, inundando seu coração de meiguice, ironia, sensibilidade...
A escritora tristemente achou graça.


Ele devia ter parco contato com as artes, coitado.
O artista molha os pincéis na alma  para pintar sua própria natureza.
Nas searas quentes da arte o artista encontra terreno fértil para germinar sementes que, de outra forma, o fariam vulnerável na fria realidade cotidiana.


É comum  usar máscaras na vida.
Nunca na arte.


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segunda-feira, 14 de março de 2011

Dançando conforme a música



Logo que aposentou, decidiu fazer aulas de dança de salão.
O marido não se interessou em acompanhá-la.
Aos poucos ela e o professor apaixonaram-se perdidamente.
Nesta quem dançou foi o marido, mas o casamento já estava dançado muito antes.

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sexta-feira, 11 de março de 2011

O céu por testemunha





Quando a polícia chegou ainda encontrou o corpo quente.
Ela chorava, desconsolada, com a arma ainda na mão.
Ela só queria que ele fosse atrás dos sonhos. Dos dela.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Do jeito que o diabo gosta



Comeu o pão que o diabo amassou até conseguir aquele emprego, na padaria.
Um dia um marido traído confundiu-o com o padeiro da noite: mandou-lhe para o quinto dos infernos.
Fala-se do diabo e aparece um rabo.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Partido alto



Tanto insistiu que casou-se com um bom partido.
Com o tempo, parte do tempo ele a tratava mal e na outra parte a ignorava.
Aparte: no fim, o coração dela é que ficou bem partido.
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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O falecido



O homem que tanto amou virou fumaça.
Fantasma, dedicou-se de corpo e alma a assustá-la.
Assombração sabe pra quem aparece.

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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Eis a questão

"Abençoado é o homem que, não tendo nada a dizer, abstém-se de dar provas do fato com palavras"
George Elliot





Era um homem que adorava citações.
Até seu silêncio exalava entrelinhas.

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domingo, 7 de novembro de 2010

Porre sintético

Amantes ao luar - Marc Chagal


Serenata sintética
"lua morta
rua torta
tua porta"

Cassiano Ricardo


Bebeu todas até uivar para a lua.
Ninguém mais lhe respondia: lua e ela pareciam mortas.
Só sua mão, em carne viva, insistia em bater à porta da casa dela.
Àquela hora.


* alongamento da Oficina Criativa