Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de março de 2012

Me chama de lagartixa



Na celeuma entre criacionistas e evolucionistas ela não mete o bedelho. Nem de Eva, nem do macaco - ela sabe que seus ancestrais diretos são as lagartixas e, por conseguinte, os dinossauros, de quem lagartixas são a versão bonsai. Como a lagartixa, ela não tem o rabo preso e, muitas vezes, usa do mimetismo para passar desapercebida. Mas é no quesito amoroso que seu coração DNA rabo de lagartixa se manifesta em plenitude: tantas vezes decepado quantas vezes autorregenerado.


Férias na praia, primeiro namorado, ambos com 14 anos, ela uns 5 cm mais alta. Em pleno estirão da puberdade, ele cresceu uns 15 cm enquanto namoravam. Um dia, seca e inexplicavelmente, ele terminou o namoro e a lagartixa enfiou o primeiro rabo-cotó entre as pernas. Anos mais tarde, num encontro casual, o moço revelou que quem tinha rompido com ela fora o irmão, gêmeo idêntico. Ela não perguntou o motivo: não devia estar mais à altura deles.

Escola nova, QI de ameba em Física. Tão péssima que a escola indicou um instrutor para acompanhar seus estudos. O rapaz, estudante de engenharia, tanto esforçou que acabou rolando uma química. Foram vários foras seqüenciais em que ele terminava com ela para cair nos braços de sua colega . E vice versa. Um dia, num lampejo de lucidez, fizeram as duas um pacto de não aceitar mais tamanha indecisão. De herança, ficou a grande amizade entre as duas lagartixas cotós.

Conheceu R. numa festa no clube. Ele, estudante de Direito, já tinha a lábia dos catedráticos. Eram completamente diferentes: ele, refinado, elegante, apegado ao material; ela, meio riponga, adepta do paz e amor. O mimetismo da espécie ancestral fez com que ela adaptasse ao seu estilo. Pena que R. não conseguiu se adaptar ao estilo monogâmico. Foram anos de foras, seguidos de lágrimas de crocodilo de arrependimento. Ela subia pelas paredes, mas compreendia a força dos hormônios masculinos e o aceitava de volta. Um dia, a gota dágua: rápida como uma lagartixa, deixou na lata de lixo do banheiro de um restaurante um pé de um sapato de grife dele (couro de crocodilo, claro!) e o restinho do seu amor. Ele saiu do local mancando. Seu coração manco enfim saltitava.

Mais tarde conheceu outro R., urologista. Paixão arrebatadora, daquelas bem fulminantes. Ela, nas nuvens. Ele, há poucos meses do casamento. Ela não tinha sangue de barata e achou que tinha usado a última regeneração do rabo coração quando ele não teve coragem de romper com o compromisso assumido.

Foi como lagartixa profissional que conheceu A. numa escola de idiomas. Ela, a professora; ele, o aluno bonitão. Achou que enfim tinha encontrado a lagartixa gêmea e mergulhou de cabeça. Uma crise de meia idade interrompeu seu sonho de jacaré. Joga na parede, chama de lagartixa, mas não faz isso com ela. Vinte anos e muitos rabos regenerados depois, olha ela de novo no mercado dos répteis, dessa vez tendo que reaprender o beabá dos animais de sangue frio.

O mundo fora do casamento parecia mais ameaçador do que era de fato. Encontrou gatos, gaviões, mas também mosquitos, lagartixas e muito sorriso de lagarto pelo caminho. A princípio pensou em mudar radicalmente, amputar rabo e DNA em um mesmo golpe. Mas segue em frente, cada vez mais tranquila. Aposta que em algum ponto da Ásia ou da África lagartixas são animais sagrados, divindades íntimas cuja presença anuncia a paz de espírito. É feliz. Agora sabe que quem nasceu pra lagartixa jamais chega a jacaré. E que perder o rabo significa quebrar por vontade própria uma parte do corpo. A isso chamam autonomia.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Questão de a(l)titude



Minha filha contou o problema: nos preparativos para a quadrilha junina na escola, a ordem era que os meninos convidassem as colegas para formarem pares. E ela estava certa que ninguém a convidaria. Tinha lá suas razões: aos 13 anos, com 1,79m, é a mais alta da escola. Inteira.


Sei bem como é isso, de certas lembranças nunca nos livramos. Aos 13 anos, eu já media os atuais 1,70 m. Na escola, era a porta-bandeira efetiva dos desfiles de 7 de setembro. Em casa, Olívia Palito. Para a turma, Vara-Pau e nas festas, o chá-de-cadeira era inevitável. Sem falar das piadinhas infames. É bom esclarecer que ter 1,70 m naquela época era muito diferente de hoje, tempo de gigantes. E ter 1,70 m numa família de pessoas baixas incluía regras absurdas como evitar praticar esportes para não estimular o crescimento e dar tratos à bola para se destacar. Sem muitas opções, virei CDF, a versão antiga dos nerd.

Tinha a questão dos pés. Comprar sapatos 38 era tarefa para desbravador. Virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo. Tinha a questão da postura. Mulher alta, quando encurva-se para adequar à altura dos outros mortais, fica corcunda. Andando de cabeça baixa, é falsa humilde. Com coluna e cabeça eretas, é metida. Eu era do tipo empinado: virei Olívia-Palito-Pé-de-Anjo-Vara-Pau-CDF-Metida.

Ao entrar numa festa, todos me observavam – um tormento para a adolescente tímida. Sem convite para dançar, eu ficava sentada para não dar na vista. Só que garota alta e tímida, quando fica encalhada, todo mundo percebe.

Adolescente, cheguei a desejar ardentemente a senitude: na velhice, pela reacomodação das vértebras, diminui-se até 2 cm. Mais tarde, superada a crise, tive uma juventude normal: encorpei, dancei, namorei, casei... Suspeito que a indústria tem acrescido hormônio de crescimento e fermento no leite, danoninho, chocolates e biscoitos há décadas. Êta juventude alta! Todas em casa são mais altas que eu. A diferença é que não ganharam apelidos, praticam esportes e compram calçados número 40 sem dificuldade.

Preocupada com o destino solitário da menina na dança junina, aconselhei-me com as bases. As filhas mais velhas, experientes, acharam que estávamos fazendo tempestade em copo dágua:
- É só escolher o menino com quem você quer dançar e convidá-lo, ora!

Foi assim que a menina conseguiu seu par. Salva pela independência e auto-confiança femininas do século XXI.

Respiro, aliviada. Posso enfim me dedicar à minha mais recente preocupação: evitar o crescimento em largura. Nada que uma dieta equilibrada, corrida cinco vezes por semana e um bom transplante de cérebro para dar cabo de tanta insegurança não consigam resolver.
.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A outra





Se Clinton traiu Hillary ( mas não foi sexo!) e o governador de Nova York foi desleal a seus princípios moralistas, certamente chegaria a vez dEla. As evidências, exuberantes, multiplicaram-se após a estada na praia, só as filhas e Ela. Percebeu algo errado no olhar reticente do marido - enquanto mulheres são pontuais nos momentos de crise, homens  enchem-se de reticências. O alarme interno deveria ter disparado quando Ela encontrou pistas na cama de casal. Mas assim são as mulheres: portadoras de sexto sentido acutíssimo, ainda que os sinais saltem aos olhos, elas preferem fazer vista grossa.


Perguntou, como quem não quer nada, quem dormira na cama deles durante Sua ausência. Com olhar inocente, ele apontou para Luna, a boxer da família. Ela e a outra se estranhavam há muito, numa competição tácita pelo papel de prima dona. Ela nada tinha contra a boxer, exceto a devoção exagerada a Seu marido e a indisfarçável implicância com Ela. Pular em cima do Seu uniforme branco com as patas sujas; destruir diariamente o jornal jogado na garagem; rosnar quando A via abraçada ao marido; fugir para a rua quando Ela abria o portão da garagem eram rotina nos três anos de coabitação. Ela sempre levou na esportiva. Assim são as mulheres: aprenderam com Oscar Wilde ( e suas avós) que a vida é importante demais para ser levada a ferro, fogo e ressentimentos.


Luna, a outra, é irascível e enfrenta até o companheiro. Quando os cães brigam e o marido percebe-A por perto, não perde a chance de consolar Zack: “Liga não, amigão. Elas são todas iguais.” Ela poderia se irar por ser comparada com uma cachorra, mas mulheres têm natureza pacífica e obstinada em fazer do lar uma faixa de Gaza.

Um dia Ela vacilou: num momento de descontrole, queixou-se de Luna ao marido. Ele ouviu pacientemente a ladainha e, previsivelmente, tomou as dores da cachorra: “Se você me desse metade da atenção que Luna me dá, eu seria um homem realizado” ( para algumas mulheres, só lobotomia resolve!).

Ela calou, escandalizada. Convive-se vinte anos com alguém, faz-se das tripas coração para ser esteio emocional; equilibra-se na corda bamba para conciliar os múltiplos papéis de mulher, mãe, profissional, esposa e de repente descobre-se que tudo que o outro desejava era uma cadela que lhe lambesse o rosto e saltitasse ao fim do dia.

Enfiou o rabo entre as pernas: em alguma coisa muito importante Ela falhara para ser comparada desfavoravelmente a uma boxer briguenta. Assim são as mulheres: andam de mãos dadas com a culpa, em dívida permanente com o Universo. Combativa, Ela tenta se acalmar: tem seus méritos, ora bolas! Se a outra não fala demais, Ela não solta pelo, não rosna e nem late. A outra aceita usar coleira, mas ninguém precisa comprar ração e trocar a água dEla. Ela não dá aquela lambida afogada em saliva, mas faz várias outras coisas que, garante, a outra não faz.

Ela esmerou na atenção, caprichou no bom trato, rosnou, abanou rabinho. Dois meses depois perguntou, meio assim na brincadeira: “E aí? Superei a Luna?” O silêncio pesado foi resposta eloquente e doeu fundo, fundo... uma verdadeira cachorrada. Assim são as mulheres: perigosamente vingativas - quando as alternativas de harmonia se esgotam, que fique claro.

Dizem que a separação, litigiosa, abriu precedência e deu trabalho pra cachorro. E que ele hoje sente muita falta dEla... especialmente nos dias de vacina e tosa.


.

( crônica antiga, escrita em fevereiro de 2008 - lembrei-me dela ontem ao falar com meu amigo Roberto Lima, jornalista, escritor, editor do blog Primeira Pessoa, que estava todo jururu com a morte de Jade, sua cachorra super amada, apesar do difícil convívio diário.
Cachorro é como grande amor, Roberto: só não sofre por ele e sente falta quem nunca teve ) 

.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dia da Cara de Pau



A idéia de homenagear categorias em datas especiais não é original e surgiu para fomentar o comércio. Mais tarde, a internet pegou o gancho e hoje o correio eletrônico nos atola com mensagens do Dia do Amigo, do Beijo ( virtual?!), da Saudade...


Espero incluir meu nome na História, sugerindo a instituição do Dia da Cara de Pau. O lançamento oficial em Brasília precederia uma campanha mundial, patrocinada por Bush e Fidel Castro. O padroeiro já está escolhido: o Santinho do Pau Oco. Réplicas de imagens religiosas mineiras do século XVIII, em cujo oco contrabandeava-se ouro e pedras preciosas, seriam vendidas como souvenirs. Por fora, a pureza religiosa; por dentro só Deus sabe!

A data lavará a alma dos mais inibidos, boa oportunidade para ficar pau a pau com o falso amigo que posa de bacana, mas é mais underground do que o capeta. Jogadores perna de pau que se acham os tais, paus dágua e suas desculpas desconjuntadas teriam, enfim, um dia para chamar de seu ( assim como o Zé Dirceu!). Aos que metem o pau em você, desconsiderando as próprias limitações, bastaria um belo cartão. Antevejo a campanha publicitária : “Pra que quebrar o pau, se agora existe o Dia da Cara de Pau?”.

Finalmente saber-se-ia com quantos paus se faz uma canoa. O colega que apresentou como dele uma idéia sua faria jus a troféu alusivo à data. Garotas tratariam com devoção o namorado bissexto que aparece quando quer – nunca aos fins de semana! – e comenta “Menina, como você está sumida!”. CDs e livros seriam enviados aos que pedem objetos emprestados e apreciam tanto que nunca mais devolvem. Rapazes que justificam rupturas de relacionamento com a máxima “Você é boa demais para mim” ficariam inseguros ao receber telefonemas amistosos das preteridas : o risco que corre o pau, corre o machado. Nada de chutar o pau da barraca daquele ex-amigo a quem você emprestou dinheiro e que, além de não te pagar, ficou de mal. Ele há de te receber de braços abertos, na maior cara dura, neste dia.

Indústria e comércio matariam a pau. A venda de cera, óleo de peroba e lustra móveis atingiria patamares recordes. Todo o Planalto recenderia a lavanda e jasmim e, por um dia, o mau cheiro abandonaria nosso Reino da Dinamarca. Agências de turismo veriam esgotados seus pacotes para Brasília, a rede hoteleira teria ocupação massiva. O povo voaria de avião para homenagear sei-lá-quem. Com risco dos computadores da torre de controle darem pau, eu não viajaria... nem a pau!

Político que se preza é pau para toda obra. Ministérios, senado, câmaras de deputados e vereadores se fariam presentes na seção extraordinária de celebração da data, bandeira nacional hasteada a meio pau. Para culminar, nosso patrono mataria a cobra e mostraria o pau através de discurso em cadeia nacional. Provando que em casa de ferreiro o espeto é de pau, o ex presidente Lula reafirmaria desconhecer o episódio do passaporte diplomático do filho e garantiria pronta devolução. Ao fim, a nova presidente Dilma reeditaria o Manifesto Pau-Brasil – o Modernismo também irrompeu nas hostes de esquerda -, comprometendo-se a eliminar de vez a desigualdade social.

  Cara de pau que nasce torto...

.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Se eu fosse você, conferiria




Na operadora da TV a cabo finalmente me atendem. Como não estou de posse do número de inscrição, a voz avisa que vai estar tentando localizar meu cadastro na Central. Passo nome, endereço, CPF, telefone, profissão - os dados não estão conferindo. Ela me orienta, sempre no gerúndio, a estar ligando novamente tão logo tenha o dito número em mãos.


Resigno. Chega uma hora na vida de todo mundo em que os dados não mais conferem. Pode ser o vestido que entrou apertado na cintura ( tem certeza que é 42?), o salário no fim do mês, justificativa de filho... Se bobear, sobra até para o marido, tão amado no particípio: um belo dia, falta gerúndio – se é que você está me entendendo. Simples assim, ad infinitum.

Aparências enganam, nem tudo que reluz é ouro, quem vê cara... Se a gente seguisse conselho de mãe e conferisse sempre, livraria de muitas e boas. Até o incrível galinho do tempo da infância ( se a camurça ficava azul, sol; rosa, frio; cinza, nublado – lembra?!) um dia encardia, perdia o efeito camaleônico e, desfeita a magia, ia direto para o lixo.

Modelo que diz “No início chorei de vergonha para tirar a roupa, mas a equipe gracinha me deixou super à vontade” é tiro e queda: a peladona já saiu de casa saltitante. O dentista afirma que o tratamento de canal vai doer só um pouquinho. Não confere, você pensa, ao sentir britadeira, pé de cabra e serrote na gengiva. A faixa “Procura-se cãozinho. Criança doente” eu já conferi: foi colocada por um senhor barbado, que pranteava o sumiço da pinscher Kika.

Olho vivo com o homem gentil, culto e espirituoso que você conheceu na sala de bate-papo virtual: ele pode ser um pervertido ou, pior ainda (?) – há de tudo neste mundo -, ele pode ser ela. Quando a esmola é demais, não custa conferir: esposa divertida, dedicada e compreensiva, que incentiva a saída do Clube do Bolinha para o chope das sextas-feiras, por exemplo. Você não tem sentido falta do Ricardo nesses encontros, não? Longe de mim colocar caraminholas na sua cabeça, que fique claro.

Uns se recusam a enxergar os fatos. Outros fazem o impossível para esconder-se da conferência alheia e a verdade só aparece depois que Inês é morta e já apertamos o verde para confirmar. Se em 2002 eu soubesse o que sei agora... Quem promete e esquece, perdoa e não esquece, governa e não sabe de nada, fuma e não traga, relaxa e não goza deveria receber carimbo permanente na testa: “Dados não conferem”.

Tudo que lançamos – dizem - um dia volta para nós em efeito bumerangue. Sei não... Se é recomendável não enganar o outro, melhor mesmo é conferir sempre. Como diria Millôr: "Quem confere ferro, com ferro será conferido".

.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Conversa de pescador




Tem horas que eu penso que Deus tem um pesador de ânimos pra mandar um alento quando vê que o andor está pesado demais. Foi assim comigo no fim dos anos 80. Meu par de internato rural era Elisa e a cidade, Padre Paraíso, encravada no Vale do Jequitinhonha. Eu não sei se você sabe que o internato rural é uma cadeira do último ano da Faculdade de Medicina, em que a gente passa três meses numa comunidade carente, praticando o aprendido na escola. Umas duas semanas antes da viagem, meu pai adoeceu de doença grave, foi operado e não dava mais pra eu enfurnar a quase 600 quilômetros de casa. Com muito tento, que os alojamentos perto da capital eram concorridíssimos, consegui que Dona Zica, tia do Elton, me recebesse em sua casa. Assim fui parar em Bom Despacho. Assim peguei intimidade com a família do Elton, meu colega de turma.


Eles adoravam pescar. Eu nem sabia pegar no molinete. Mas fui aprendendo e tomando gosto. E quase toda tardinha, menos nas noites de plantão na Santa Casa, Dona Zica passava no posto de saúde do Campo Grande, onde eu trabalhava, pra gente ir pescar. Nem sempre o Elton ia, porque ele era piolho de bloco cirúrgico. Não me espanta ele ter virado um anestesista tão fera. Mas Dona Zica não falhava. Nem os amigos dela e o resto da família. Tinha dia que vinha muito peixe, tinha dia que não dava nada. Eu é que nunca perdi a caminhada: aquele jeito manso de ir rodeando, rodeando, gastando prosa, me enredava tanto que eu sentia a maior falta quando ia pra casa visitar o pai. De vez em quando os causos eram escabrosos demais e eu ficava na dúvida se acreditava ou não. Dona Zica me chamava à razão: bom pescador aumenta, mas não inventa.

Até que um dia aconteceu comigo. Eu nem gosto de contar muito, gente pode duvidar, mas o pessoal que estava comigo está todo vivo, menos a Dona Zica, que Deus a tenha, pra confirmar a história. Eram o Elton, seu Zaqueu, Teodoro, Dona Zica e eu. Teve uma hora, já de noitinha, que as iscas acabaram e seu Zaqueu deu na veneta de pescar com traíra. E não sei se você sabe que traíra a gente mata com facão. Pois bem na horinha que seu Zaqueu levantou o facão para matar a bicha, o Elton enfiou o nariz onde não era chamado. Esqueci de contar que ele era muito do narigudo. Aí já viu: na escuridão, lá se foi o nariz do pobre. Foi um deus nos acuda. Procura que procura, nada de achar o danado. A sorte é que o Teodoro não largava a latinha de rapé por nada neste mundo e a gente esparramou o pó no entorno. Não deu outra: o nariz perdido danou a espirrar e conseguimos localizar o fujão. Nessa hora seu Zaqueu me deu uma bisnaga de durepóxi, que ele guardava pra quando o barco fazia água. Colei o nariz no rosto do Elton e fiz um curativo meia boca, o melhor que consegui. Resolvemos voltar que a pescaria já tinha perdido a graça mesmo. No caminho o Elton começou a perder o fôlego e ficar branco que nem cera. Fomos direto pra Santa Casa. Lá no claro eu entendi o problema: na correria, colei o nariz do infeliz ao contrário, de ponta cabeça. Ainda bem que, além de narigudo, o Elton era danado de bocudo: pela boca ele foi pegando ar até o médico consertar o meu mal feito. Já pensou? Era capaz de não me darem o diploma se ele tivesse morrido afogado...

Pois então, foi assim. Tem também o caso do bagre sentimental, mas esse eu deixo pra uma outra hora.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O corrupto




É obscura a origem do Homo Espertus Corruptus. Fala-se em variação anômala do Homo Sapiens, na descendência de Caim - os pais, envolvidos com a serpente e a maçã, não lhe teriam transmitido valores e princípios. Outra hipótese é a involução de uma ameba presente no lodo do Rio Tietê, o que justificaria a predileção por mares de lama. Já a origem da palavra, corruptela do latim, é clara: coração rompido.


O Corruptus tem características peculiares. Veste colarinho branco, ama política e lava dinheiro com OMO. Discreto, age por baixo dos panos e defende o sigilo de seu território bancário com unhas, dentes e serra elétrica. Idolatra Judas Iscariotes e leva a sério o lema da prostituta “É dando que se recebe”. Apesar de caçar em bandos e quadrilhas, é individualista e solitário. Do rosto sai serragem, obrigando-o a substituir a loção pós-barba por óleo de peroba. Cresce às custas do voto e omissão da sociedade, mas deliberadamente ignora suas regras. Até recentemente, seus recursos fundiários eram transportados em cuecas e malas. Hoje, prefere cartões corporativos. Alguns, marcados pelo estigma da estrela, tornam-se Corruptus após contato com o poder. A transformação inversa, de Corruptus em Sapiens, ainda não foi observada.

O dialeto da espécie inclui termos como armação, negociata, propina e caixa dois. Seu habitat é funcional: multiplica-se onde há condições favoráveis. Prefere climas tropicais de grandes amplitudes sociais. Camufla-se na folhagem eleitoral. Tem o RNA mutante dos vírus, o que impossibilita a criação de uma vacina preventiva. Mamífero, suga as tetas do Homo Sapiens, em parasitismo incansável. Aprecia laranjas e defende o PT - Pizza para Todos. No Brasil, concentram-se no planalto central, mas podem ser vistos em todas as regiões. Ocupam o topo da cadeia alimentar, desde que dois de seus predadores – Punição e Transparência – entraram em extinção. O crescimento só é refreado pelo canibalismo típico da espécie, Imprensa e Polícia Federal. Para se safar dos dois últimos, associam-se, em simbiose, a Advocatus Bempagus. Apesar dos grampos, a PF não consegue rastrear a fauna escondida no mar de lama. Ali nadam de braçadas polvos-dumbo (orelhas e pés enormes captam propostas indecentes e arrombam portas do erário); lula-sapo; tubarões vorazes e escorregadias enguias. Desovam em ilhas fiscais paradisíacas.

Híbridos, possuem abraço de tamanduá, lágrimas de crocodilo, olhos de lince, lábia de vendedor e memória de peixinho dourado. Dissimulados, esquecem, negam, mentem, inventam. Populistas, são benquistos pelo Sapiens pouco informado. Com extrema elasticidade ética, veiculam pestes gravíssimas. Se o contato for inevitável, proteção para os ouvidos, sinal da cruz e dente de alho são armas poderosas: muitos são vampiros sanguessugas.

Todo Homo tem seu preço. O do Sapiens é intangível – amor, felicidade, paz. No Corruptus, é cédula sobre cédula. Não dão ponto sem nó: “Topa, não topa. Morre aqui”. Suborno e chantagem. Magris e obesos, anões e gigantes, calvos e cabeludos usam e abusam do público para uso privado. Infiltram-se no Executivo, Legislativo, Judiciário, Forças Armadas, empresas privadas, igrejas, esportes, ONGs e universidades. Após lotearem a administração federal e seus recursos, relaxam e gozam. E recomendam que o Sapiens faça o mesmo.

Discute-se a razão para a preferência nacional. Para uns, é herança portuguesa. Outros culpam um meio-armador fumante que gostava de levar vantagem em tudo. Há quem atribua a PC Farias o modelo atual de ação. O certo é que estes santos do pau oco alastraram-se, com jeitinho, na sociedade. Hoje são endêmicos e daqui só saem para uma operação no Uruguai ou tratamento psicológico na Suíça, quando se sentem perseguidos. Safam-se sempre. CPIs (Corruptus Politicus Impunis) foram extintas, por inoperância, em países como Dinamarca e Canadá, mas persistem no Irã e Venezuela, nações que disputam conosco o ouro na Olimpíada Mundial de Impunidade.

A dialética do engodo é altamente contagiosa. Homo Sapiens contaminados adquirem DVDs piratas, molham a mão do policial para livrar-se de multas, pagam uma cervejinha para o funcionário público agilizar trâmites burocráticos, permitem que os filhos fraudem nas provas da escola. Uma pequena malandragem aqui, um tráfico de influência por pistolão ali, uma sonegaçãozinha acolá... E salve-se quem puder.

Há situações em que a realidade não tem a menor graça. 
 
.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dor de cotovelo


Enquanto alguns só têm olhos para o próprio umbigo, perco-me em reflexões com meus cotovelos. Literalmente. Fico imaginando de onde Deus tirou a idéia. Apêndice serve para cirurgião treinar a técnica. Calcanhar mostrou a que veio no gol de Sócrates na Copa de 82. Ajoelhou, tem que rezar. Cotovelo já começa mal pelo nome – e cúbito, o termo técnico, não melhora muito a coisa.


Cotovelos sempre foram meu tendão de Aquiles. Nas lembranças da infância, eles se acotovelam em ensinamentos maternos: “Tire os cotovelos da mesa”, “Só se coça os ouvidos com o cotovelo”, “Não se pode apagar com o cotovelo o que se escreveu com a mão”. Por causa deles, nunca obtive uma aprovação plena pós banho: quem acha que lavar cotovelos é fácil está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

Na adolescência, cismei que os meus precisavam ser macios – e dá-lhes hidratante e almofadinha de apoio na hora do estudo! Grande bobagem. Gosto é que nem cotovelo, cada um tem o seu, mas nunca conheci alguém que tivesse fetiche por eles. Quem já ouviu falar do cotovelo de Helena, cuja beleza destruiu Tróia? Ou dos cotovelos da Sharon Stone? Vênus de Milo nem os tinha. Ainda assim, por causa de um cotovelo quebrado curti a primeira dor-de-cotovelo: não joguei a final do torneio interescolar de handball e as meninas do Estadual Central, por quem todos os garotos da minha escola eram fascinados, levaram o ouro. Não que eu fosse boa jogadora, mas mordi os cotovelos de inveja. E nunca esqueci a traição. Não foi difícil: até hoje, quando o tempo esfria, o tal cotovelo quebrado dói para me lembrar do episódio.

Só quem experimentou, na pele os transtornos psíquicos que uma pontiaguda dor-de-cotovelo provoca - e chorou por alguém perdido em algum cotovelo do mundo - sabe como dói fundo na alma. Quem souber o segredo anatômico que me explique: por que o pé na bunda dói no cotovelo? Sei lá, só sei que a gente faz cada coisa irracional que parece que o cotovelo foi parar no cérebro. Haja bar, lenço de papel e música de fossa cubital. E dor de cotovelo crônica só cai bem nos versos de dupla sertaneja.

Tem gente que fala pelos cotovelos e sai emendando um assunto no outro - nessa hora, o cotovelo do ouvinte incauto serve para apoiar a cabeça exausta, que finge interesse. Cotovelos e parapeitos de janelas são insuficientes para os que gostam de discorrer sobre a integridade moral dos passantes – dá vontade de falar: "Ora, vá cuidar dos cotovelos!"

Cotovelos são armas de torque poderoso como um martelo. Criam calos. Esfolam. Dão choque. Dão banana em gesto de ofensa. Puem a manga dos casacos. Servem para motoqueiro pendurar capacete e consumistas, sacolas. Acotovelam-se em centros comerciais às vésperas de datas festivas. Proliferam, exponencialmente, em dias chuvosos. Irritantes, são perfeitamente dispensáveis.

Há uns dois meses, quando voltei a praticar tênis, após 15 anos afastada do esporte, passei a sentir uma dor articular renitente e progressiva. Hoje, no ortopedista, recebi o diagnóstico: cotovelo-de-tenista, doença em que há esgarçamento da articulação e cujo tratamento é antiinflamatório e repouso.

Além de terem vida exterior autônoma ( para os tímidos como eu, em situações de desconforto social sempre sobram cotovelos), os meus também têm vida interior e agora decidiram que precisam descansar.

Cotovelos abraçam, é verdade, mas um abraço compensa tanta chateação?

.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

No olho do furacão


A estante estava propositalmente escondida num canto, ainda na embalagem da loja. Ela havia se prometido mandar fixá-la à parede antes que Ele a descobrisse. Ele era do tipo prestativo, que gostava de fazer as coisas com as próprias mãos – suas e de quem aparecesse no caminho.


Acontece que Ele acordou no domingo, viu o embrulho e, resolutamente, anunciou que assumiria a empreitada. De nada adiantaram os argumentos para deixar aquilo para lá e aproveitar o dia, ele já trabalhava tanto...

“ Que nada, isso para mim é terapia!” – aquilo, em bom familiês significava “cancelem os compromissos que a jornada será longa”. Prepararam-se para o pior : muita gente, à beira de um ataque de nervos, ia carecer de terapia até o fim do dia.

Preparação: uma filha devia buscar o tamborete, a outra, a trena e a terceira, o lápis para marcação dos furos. E que Ela não saísse do lugar, para garantir visualmente que as marcas estavam corretas. Falando nisso, alguém tinha visto o nível dágua?

Meia hora depois, a parede parecia um tabuleiro de War, tantos eram os pontos assinalados. Onde estava a furadeira? Cadê o fio de extensão? Quem guardou os óculos de proteção da última vez? Foi então que Ele descobriu que faltavam buchas e parafusos. Não se apertou: que a filha mais velha fosse tomar emprestado ao vizinho. Enquanto esperavam, que tal a outra pegar uma cerveja bem gelada? Cerveja combina com tira-gosto, claro, e lá foi Ela providenciar Seu desejo.

Buchas, parafusos, cerveja e tira-gosto a postos - hora de reiniciar o trabalho. Que uma das meninas ficasse por perto, para o caso de Ele precisar de alguma coisa. Que a outra posicionasse a pazinha logo embaixo de cada furo para aparar o pó, que a terceira buscasse a lata de lixo... E que Ela escolhesse um CD para alegrar o ambiente e celebrar aquele momento especial de trabalho em família.

Tentando entender o esquema da montagem, Ele virou-se abruptamente e o fio da extensão enrolou no tamborete. Em desequilíbrio, Ele caiu sobre o vaso de Murano, herdado da avó dela. Em efeito dominó, o vaso derrubou o aquário, deitando peixes e água sobre o tapete arraiolo. Enquanto todos se mobilizaram para salvar os peixinhos, Ela imaginava como tirar o cheiro de peixaria do tapete novo. Na tentativa de salvamento, Ele cortou o dedo nos cacos da relíquia e a cortina branca de percal, recém chegada da lavanderia, Lhe pareceu a gaze perfeita para estancar o sangue. Ele soltou um palavrão ao ver o tamanho do corte e Ela quis saber se aquela era a linguagem usada no curso domiciliar de formação de delinqüentes juvenis.

Ao fim do dia, estante e prateleiras na parede salpicada de marcas de dedos, o ambiente parecia devastado por um furacão. No meio dos destroços, Ele admirou o trabalho realizado e, em estado de graça, comentou: “E tem gente que pagaria um dinheirão para mandar instalar esta estante!”

Da próxima vez que Ele decidir assumir alguma tarefa doméstica, Ela jura que, nem que chova canivete, vai para Nova Orleans conferir in loco a devastação do Katrina sobre a cidade.

Ela duvida muito que seja pior do que o estado do escritório naquele momento.


.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O repouso do guerreiro



Esta é uma daquelas histórias com moral, inspirada em diálogo entreouvido em capítulos no restaurante onde almoço algumas vezes por semana.


Ela, loura e linda, ainda não chegou aos 30. Ele, que já deve ter tido cabelos mais castanhos e em maior quantidade, atravessou o portal dos 50 faz tempo. E todo mundo sabe (ou deveria saber) que, ao contrário dos de menos de 30 que vão direto ao assunto e instantes depois estão prontos pra outra, após os 50, os preparativos e a recuperação são mais longos que a ação propriamente dita.


Ela, a cem por hora. Ele, em ponto morto, naquele interstício de fadiga e espera, em que o combustível que esvaiu-se do tubo ainda não chegou ao tanque original – coração e pulmões.

- Benhê...


- ...


- Benhê...


- Não começa, Maria Alice. Tira o dedo do seu pé da sola do meu.


- Uai, por que? Tá te incomodando?


- Está me desconcentrando.


- ...


- Não faz essa cara, querida. Eu sei onde seu dedinho quer chegar. Mas também sei que Ele aqui não vai a lugar nenhum. Não agora.


- Ta. Então vamos conversar.


- ...


- Fala alguma coisa, vai...


- Quem disse que precisa conversar?


- Não entendi...


- É, onde está escrito: na Bíblia ou no Kama Sutra?! Por que não falar tudo antes, durante??? Por que tem que ser depois?!


- Puxa, que mau humor, hein?!


- Chega pra lá, vamos dormir um pouco.


( ... )


- Benhê... pega um copo dágua pra mim?


- Outra vez?! Precisa ver se você não está diabética...


- ... com três pedras de gelo.


- Tem que ser agora?


- Por favor.


- Já vou pegar... daqui a pouco.


( ... )


- Armandô ... Continuo com muita sede...

Ele foi. Sem força e sem vontade, mas foi. Quando sentiu os efeitos do ar frio da geladeira, pensou em Laura. O que ela estaria fazendo àquela hora? Não sabia. Mas de uma coisa ele sabia: se ela ainda estivesse ali, não ia ter essa de puxar papo ou buscar água... O que ela dizia mesmo? Ah, que mulher que não cai no sono depois, é porque não gozou.


Bateu muita saudade naquela hora. Sem gozação.



Moral da história:

Evite assuntos muito pessoais em restaurantes.
Acaba virando papo crônico. Ou crônica.
.

sábado, 6 de novembro de 2010

Amor ao pé da letra


Estranho é o mundo das letras virtuais: por vezes basta uma frase solta no ar, uma idéia, um jeito de expressar... Pronto, encantamo-nos. É que as letras combinam-se em textos. E textos convidam a buscar imagens que completam as letras. E vai crescendo uma coisa dentro da gente, além da simpatia. Algo parecidíssimo com amor. Amor pelas letras.


Ao pé das letras a gente vai conhecendo diferentes alfabetos e se deixando conhecer. Há textos pessoais como letras cursivas; padronizados como letras de forma; claros como letras redondas; guturais como letra de médico. Uns são tristes e melancólicos como letras góticas, outros esvoaçam como as borboletras pernambucanas. Alguns estão prontos para cair na boca do mundo, como letras de imprensa, dignas de um belo letreiro. Letras de câmbio estimulam trocas; outras se aquietam, imobiliárias. Raramente aparecem letras anônimas, literadiças e minúsculas, destiladas em comentários maldosos. Importa as maiúsculas - aquelas que te fazem rir, sonhar, pensar, sentir. Letras que se combinam, vogais e consoantes, em textos líricos, filosóficos, informativos, divertidos...

Para bom leitor, pingo no i é letra. Algumas a gente lê com olho de exclamação, outras dão vontade de abrir parênteses e gritar: gol de letra! Umas são cheias de aspas e outras, convite para o diálogo, puro travessão. Letras reticentes e letras com vírgulas de se tirar o fôlego. Letras que deixam interrogação e outras definitivas como ponto final.

Umas te encaram, ousadas e francas. Outras te olham de soslaio, entre tímidas e apreensivas. Letras te fazem viajar e há as que te prendem no chão. Textos que você gostaria de ter escrito e palavras que você sabe que nunca escreveria. E a gente de repente se pega sorrindo para a tela do computador, admirando a inteligência e perspicácia de um, a delicadeza e sensibilidade de outro, a transcendência, a sensatez, a doçura, a firmeza, a intensidade emocional... E de repente se dá conta que por trás da sopa de letras há seres humanos consistentes e nutritivos.

Talvez pela primeira vez na história da humanidade, as pessoas se conhecem em sentido literal não bíblico. Não falo só dos que optam pelas relações virtuais em detrimento do mundo real. Falo também de gente com razoável trânsito social que de repente descobre as delícias do contato pelas vagas nuvens de elétrons que trafegam em alta velocidade pelos cabos internautas. E descobre afinidades que muitas vezes se transformam em admiração e respeito. Ora vai-se curtindo a relação devagar, conhecendo, pouco a pouco, os detalhes do autor das letras; ora dá vontade de pular preliminares e chegar logo nos finalmentes, na relação cara-a-cara.

Letras não só têm pé, mas também cabeça e coração. Por isso se atraem ou se repelem; se respeitam ou se amam. E sofrem. Há coisas que nem um coração letrado consegue tirar de letra.
 
.

sábado, 18 de setembro de 2010

Entre tapas e beijos


Rir faz bem. Pensar também. Quando dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo, é melhor ainda. Para isso, a gente lança mão das histórias. Algumas, as fábulas da vida real , são criadas a partir de uma observação cotidiana. Em outras, carrega-se um pouco nas tintas do exagero para narrar um fato real. Raras histórias já chegam prontas. Quem me contou a de hoje foi o sargento Moraes, policial militar aposentado, anjo sobre rodas que costuma trazer minhas filhas para casa depois da balada.


Tão logo a viatura parou, os dois saíram correndo na direção dos militares:


- Foi ele quem começou.

- Não começa, Maria Alice. Foi ela, sargento.

- Grosso! King Kong!

- Grossa! Chita!

- Acalmem-se os dois, pra gente entender o que está acontecendo.

- Olha meu braço. Ele me agrediu, o covarde.

- Ela me bateu primeiro, a dissimulada.

- Ele atirou duas panelas em mim, sargento.

- Pena que eu errei a primeira...

Os dois militares tiveram que pedir calma, agora com menos calma.

- Um de cada vez. Temos que ouvir as duas versões.

- Que duas versões? Só tem a minha versão, a da vítima.

- A vítima sou eu, ora... Se acreditar nele, eu vou achar que vocês são farinha do mesmo saco. Homem sempre defende homem, que eu sei.

- Temos que ouvir os dois. Tá no Código de Conduta. Primeiro fala quem fez a denúncia no 190.

- .....

- ....

- Qual dos dois é Ivanir? A Central informou que Ivanir fez a denúncia.

- Ivanir é a vizinha do outro lado da rua ...

- Mas que falta do que fazer da Dona Ivanir, hein?! Metendo o bedelho na vida dos outros... Devia era olhar aqueles meninos dela, cada olhão vidrado...

- Em vez de ficar intrometendo na vida da gente, vocês deviam autuar ela... Imagina incomodar a polícia por bobagem...

- A gente vai registrar queixa contra ela, isso sim!

- E a polícia, boba, cai na conversa de quem não tem o que fazer... Não sei quem é pior...

- Já que estão insatisfeitos, é melhor continuar essa história na delegacia.

- Opa, isso não! Ninguém vai levar minha mulher pra delegacia. Só por cima do meu cadáver.

- Que lindo, amor! Também só deixo levarem você no dia de São Nuncas.

- Em vez de ficar empatando a nossa vida, vocês deviam estar na rua prendendo bandido, isso sim.

- Vamos entrar, meu amor, deixa eles pra lá. Ta começando a chover, você pode ficar gripado. Vou te fazer um chá de limão quente, vem.



Pergunta se o casal convidou os policiais para o chá. Pergunta se Ivanir deu as caras para oferecer, pelo menos, um cafezinho. Claro que não: ela sabe, sargento Moraes, que em briga de marido e mulher não se mete a colher...

A gente demora, mas um dia aprende.

.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Foi bom pra você, meu bem


Tem coisas que só deve perguntar quem está psicologicamente preparado para ouvir verdades. Não a nossa verdade ou o que gostaríamos que fosse verdade, mas a verdade do outro. Aconteceu com aqueles dois, casadíssimos. Desde o século passado. Manhã de sábado e ele cisma de perguntar:


- Foi bom pra você, meu bem?

- ???

- Não se faça de desentendida! Quanto, de 1 a 10?

- Ah, isso... Dorme mais um pouco, amor. É cedo ainda.

- Não enrola: bom ou ruim?

- Hum... médio...

- ?

-  Não fica bravo, vai... É que antes era... diferente.

- Diferente? Diferente como?!

- Não estou queixando, querido, mas no início era mais gostoso.

- Desenvolve!

- Depois a coisa diminuiu de tamanho, esfriou e ....

- Chega, já entendi... Cadê o controle remoto dessa droga de TV?

- Tem dias que só de pensar em encarar o dito cujo, bate uma preguiça... Não faz essa cara, meu anjo...

- Já te pedi mil vezes pra não me chamar de meu anjo! Anjo não tem sexo, não avacalha... Pôxa!

- Desculpa. Amorzão. Tem dias que eu fico gelada. Aí, faço bem rapidinho para acabar logo.

- ...

- Mas eu andei pesquisando por aí e acho que tem solução.

- PESQUISANDO POR AÍ?

- Não grita, senão as meninas acordam. Você precisa ver o folder: fotos incríveis!

- Você viu fotos???

-  Hum-hum... E fiquei imaginando se você toparia...

- .... ?!

- A gente precisa encarar, querido. Com o tempo, as coisas já não funcionam tão bem, é assim mesmo. Lei do Uso e do Desuso. Sinal de que foi muito bem usado, né?

 - ...

- Minha colega falou que o efeito é sensacional. Tem uma ...

- Você discutiu isso com suas colegas sem falar nada comigo?!

- Só com a Bel. O Marcelo também teve que trocar. Foi ela que me deu o folder. Tem uma válvula que dá mais pressão na hora de...

- Sou uma besta mesmo. Mas até uma besta passaria por inteligente se ficasse calado... Sou uma besta ao quadrado, é isso!

- Que bobagem, meu amor. Não tem nada demais...

- Porque não é com você! Fico imaginando o incômodo, o trabalhão... E como é que faz, você sabe?

Ela não sabia, mas deu um jeito de descobrir. E convenceu o marido a trocar o chuveiro jurássico por uma ducha moderníssima, sistema de vazão total, cano extra forte, trezentos jatos expandidos de alta performance, doze opções de temperatura...

Bom pra ele. Bom pra ela.


.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Amor e sexo


Amor e sexo andam juntos feito Cosme e Damião.

Amor é público; sexo, privado. Amor é poupança, sexo é mercado de ações. Se o amor promete mundos; sexo não garante fundos.

O amor é avaro; sexo, luxúria. Amor cobra, sexo cega. Amor requer química. Sexo é pura alquimia. O amor, oceano, afoga em vaga; sexo, contingente, procura lume. Amor é coca, sexo cola. Amor não correspondido dá bode. Sexo é expiatório. Sexo tem ponto G. Tem amor em ponto com, mas o gostoso mesmo é cara a cara. Porque aí o sexo coroa.

Todo amor marca. Sexo é patente. Amor é bom, mesmo que o sexo não seja lá nenhuma Brastemp. E vice-versa. Amor é Mastercard, coisa que o dinheiro não compra. Sexo (a)Visa: porque a vida é agora. Amor é Avon, a gente conversa, a gente se entende. Sexo é Boticário: você pode ser o que quiser. Amor e sexo juntos, Wallita faz com carinho.

Amor gera ais. Sexo põe pingos nos is. Males de amor são graves; de sexo, agudos. Amor quer ter Razão. Sexo é pura Sensibilidade. Amor inspira, sexo transpira. O amor transcende. Sexo, às vezes, é acidente. O amor, metáfora, se declara em letras. Sexo, literal, na expressão. Sexo pode vir antes do amor. Procede, mas no Houaiss amor precede. O amor idealiza, sexo realiza. O amor é dito. No sexo, fica o dito pelo não dito.

O amor é grato; sexo, grito. O amor é mito; sexo, rito. Amor brota, sexo é a bruta flor do querer. Amor exige votos. Sexo deposita na urna. O amor é achado. Sexo perdido é irremediável. Amor sem sexo é platônico. Sexo sem amor é sindrômico. Amor sem sexo é meia dúzia. Sexo é meia nove. Amor sem sexo pode ser bom, meu bem. Sexo sem amor também.
.
Amor é assim, sexo é assado. Sexo não tem pé, por amor perde-se a cabeça.
.
Jabor é amor, prosa e poesia.
Sexo é Rita Lee, caso sério.

Amor é entrada; sexo, sobremesa. Ou é o inverso? Pouco importa se o prato principal é a vida.

E a vida... ah, a vida a gente vai levando como Deus quer.
.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Dor de cotovelo

Enquanto alguns só têm olhos para o próprio umbigo, perco-me em reflexões com meus cotovelos. Literalmente. Fico imaginando de onde Deus tirou a idéia. Apêndice serve para cirurgião treinar a técnica. Calcanhar mostrou a que veio no gol de Sócrates na Copa de 82. Ajoelhou, tem que rezar. Cotovelo já começa mal pelo nome – e cúbito, o termo técnico, não melhora muito a coisa.

Cotovelos sempre foram meu tendão de Aquiles. Nas lembranças da infância, eles se acotovelam em ensinamentos maternos: “Tire os cotovelos da mesa”, “Só se coça os ouvidos com o cotovelo”, “Não se pode apagar com o cotovelo o que se escreveu com a mão”. Por causa deles, nunca obtive uma aprovação plena pós banho: quem acha que lavar cotovelos é fácil está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro.

Na adolescência, cismei que os meus precisavam ser macios – e dá-lhes hidratante e almofadinha de apoio na hora do estudo! Grande bobagem. Gosto é que nem cotovelo, cada um tem o seu, mas nunca conheci alguém que tivesse fetiche por eles. Quem já ouviu falar do cotovelo de Helena, cuja beleza destruiu Tróia? Ou dos cotovelos da Sharon Stone? Vênus de Milo nem os tinha. Ainda assim, por causa de um cotovelo quebrado curti a primeira dor-de-cotovelo: não joguei a final do torneio interescolar de handball e as meninas do Estadual Central, por quem todos os garotos da minha escola eram fascinados, levaram o ouro. Não que eu fosse boa jogadora, mas mordi os cotovelos de inveja. E nunca os perdoei pela traição. Não foi difícil: até hoje, quando o tempo esfria, o tal cotovelo quebrado me faz sofrer.

Só quem experimentou, na pele, os transtornos psíquicos que uma pontiaguda dor-de-cotovelo provoca - e chorou por alguém perdido em algum cotovelo do mundo - sabe como dói fundo na alma. A gente faz cada coisa irracional que parece que o cérebro foi parar no cotovelo. Haja bar, lenço de papel e música de fossa cubital. E dor de cotovelo crônica só cai bem nos versos melancólicos do poeta. Tem gente que fala pelos cotovelos e sai emendando um assunto no outro - nessa hora, o cotovelo do ouvinte incauto serve para apoiar a cabeça exausta, que finge interesse. Cotovelos e parapeitos de janelas são insuficientes para os que gostam de discorrer sobre a integridade moral dos passantes – dá vontade de falar: "Ora, vá cuidar dos cotovelos!"

Cotovelos são armas de torque poderoso como um martelo. Criam calos. Esfolam. Dão choque. Dão banana em gesto de ofensa. Puem a manga dos casacos. Servem para motoqueiro pendurar capacete e consumistas, sacolas. Acotovelam-se em centros comerciais às vésperas de datas festivas. Proliferam, exponencialmente, em dias chuvosos. Em suma, são perfeitamente dispensáveis.

Há uns dois meses, quando voltei a praticar tênis, após 15 anos afastada do esporte, passei a sentir uma dor articular renitente e progressiva. Hoje, no ortopedista, recebi o diagnóstico: cotovelo-de-tenista, doença em que há esgarçamento da articulação e cujo tratamento é antiinflamatório e repouso.

Além de terem vida exterior autônoma ( para os tímidos como eu, em situações de desconforto social sempre sobram cotovelos), os meus também têm vida interior e agora decidiram que precisam descansar.

Cotovelos abraçam, é verdade, mas um abraço compensa tanta chateação?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Chapeuzinho, quem diria...

Chapeuzinho era chamada de Chapinha Vermelha quando finalmente superou o traumático episódio da floresta. Graças aos avanços da tecnologia cosmética, seus cabelos, antes indomáveis e escondidos sob o capuz, balançavam soltos, lisos a vapor. Como toda garota boazinha que se preze, Chapinha adolesceu em graça, formosura e rebeldia - expressa nas pontas vermelhas.

O confronto com o lobo aproximou as famílias de vítima e salvador. Visitavam-se nos aniversários e feriados. A companhia preferida de Chapinha nessas ocasiões era Cássio, o filho mais velho do caçador. Cássio era excelente pessoa: bem educado, bom caráter, gentil. E estava se saindo muito bem na profissão de Caçador de Pipas. Boazinha Chapinha não era – com a história do lobo, havia aprendido a não pôr o chapéu onde a mão não alcança. Mas era boazuda e Cássio caiu de amores.

No pedido de casamento, o rapaz surpreendeu-a com um anel de família, herança do bisavô Fernão, o Caçador de Esmeraldas. Chapéu, cheia de encantos, encantou-se pelo rapaz de maneiras encantadoras. Os primeiros tempos de vida em comum foram encantados. O marido, um encanto que só vendo, não se descuidava nos mimos. É o chapéu que faz o homem, justificava-se, com franqueza encantadora. Os negócios da família prosperaram e ela tornou-se Hatty, presença constante no high society. Formavam um casal de se tirar o chapéu.

Com o tempo, no entanto, Hatty passou a sentir um vazio inexplicável. A vida era tediosamente feliz. Cássio era tão solícito e apaixonado, que dava vontade, como diria a finada vovozinha, de mandar tudo para a Casa do Chapéu.

Na estréia de um show patrocinado pelo marido, Hatty se sentiu irresistivelmente atraída pelo guitarrista com cara de mau. Aquelas manoplas, aqueles olhos tão grandes, aquela voz rouca lhe evocavam lembranças... Procurou se informar: chamava-se Lobão e ninguém podia dizer que era lobo em pele de cordeiro. A dondoca deu um chapéu no marido e aproximou-se do bad wolf. Sentiu-se como Bela Adormecida, despertada por beijos lupinos.

A vida voltava a ter sentido: por Lobão, Hatty perdeu o chapéu e a cabeça. Por causa dos dois, Cássio passou a usar chapéu de touro. O marido foi compreensivo: afinal, um dia é da caça e o outro é do caçador. Propôs esquecer tudo. Quem sabe uma viagem a Minas, para visitar o primo Milton, o Caçador de Mim ou a Alagoas, terra do Fernando, Caçador de Marajás? Hatty fincou pé. Mirou-se em Luma de Oliveira: também queria viver seu amor bandido.

Lobão era polêmico, envolvia-se com drogas, indispunha-se com as gravadoras, denunciava o jabá das emissoras de rádio e TV, sumia de casa por dias, tratava-a mal... As finanças do casal eram mais apertadas do que chapéu novo: para sobreviver, passavam o chapéu entre parentes e conhecidos. Mas quem tem medo do lobo mau? Chapéu ( Hatty foi-se com o high society ) não tinha. Viveram, aos trancos e barrancos, por quase seis anos.

Um dia a sorte sorriu para Lobão. Ele lançou um CD Acústico aclamado pelo público e virou VJ na MTV. O sucesso e a idade fazem milagres : o músico abrandou o gênio, abandonou as drogas, enquadrou-se ao sistema, ficou atencioso e simpático.

Chapéu agora é feliz... tediosamente feliz... Quase todas as noites, ela sonha com um Caçador de Emoções.

E sente um vazio inexplicável...

( Os bonzinhos e os politicamente corretos que me perdoem o final pouco edificante, mas Chapéus gostam mesmo é de bad boys. )

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Santo de casa


Quem não tem sequer uma mania, que atire a primeira pedra. Imelda Marcos colecionou sapatos, Debora Secco cataloga namorados, Lula tem queda por charutos – o meu fraco são os santos. Tenho uma coleção considerável de imagens, que variam em tamanho, material e habilidade do artesão. Meu santo é forte, não tenho do que me queixar : sinto-me bem entre objetos que evocam o sagrado.


De vez em quando um santo dá baixa do exército guardião. No último sábado, no transporte de uma cama, a imagem de Nossa Senhora do Silêncio foi decapitada. Quase perdi a cabeça. “Devagar com o andor que a santa é de barro”, deveria ter alertado os carregadores, em antecipação à máxima gravitacional “pra baixo todo santo ajuda”. Só não chorei ao coletar os cacos da imagem, presente de uma grande amiga, porque duvidariam da minha sanidade mental.


Nem louca, nem santa: um pouco supersticiosa, admito. Na bolsa, a miniatura em chumbo da imagem de Santo Onofre me protege contra a falta de dinheiro – pena que ela não me lembre de passar no caixa eletrônico para sacar em espécie. Divide espaço com Santo Onofre um terço de pétalas de rosas abençoado por João Paulo II e uma prece de Santo Expedito, o santo militar das causas impossíveis. Conta-se que uma gráfica especializada em santinhos rumava à falência quando seu dono teve uma santa idéia: imprimir cópias da oração de Santo Expedito e deixá-las em igrejas, com a recomendação de se imprimir novo milheiro de cópias a cada graça alcançada, advertindo que o santo da última hora requer presteza no que lhe é prometido (?!). Os negócios prosperaram, a gráfica é hoje uma bem sucedida editora. Quem disse que santo de casa não faz milagres?


Só abandonarei o hábito gregário no dia de São Nuncas: daria trabalho recolher todos os objetos sacros. No criado mudo ao lado da cama descansam a Bíblia, um crucifixo de prata mexicana e a imagem impressa de Maria, adquirida num camelô. No carro, reúno terço franciscano, oração de São Cristóvão e adesivo de Maria. Prudência nunca é exagero: patrão fora, dia santo na loja. Para falar a grandes grupos, traz-me confiança sentir o Tau pendurado no pescoço. Certa vez, a caminho de um hotel fazenda onde conduziria seminário para uma rede de franquias, não hesitei em voltar quase trinta quilômetros sob chuva forte só para resgatar o tal Tau deixado em casa. Se São Francisco julgava excesso de intimidade eu levar seu símbolo mais sagrado no colo, nesse dia ele deve ter se convencido da devoção.


Pelo santo se beija o altar: o costume atingiu outros membros da família. Sabemos a quantas anda a vida sentimental da minha filha mais velha só de observar o seu termômetro amoroso. Nos dias de sol do namoro, a imagem de Santo Antônio repousa incólume no oratório. Em tempo nublado, a imagem fica de castigo, virada para a parede. Já encontrei o santo no banheiro, entre a pia e a louça sanitária: devia ser tempestade brava! Há mulheres ainda mais cruéis ( ou desesperadas) que dependuram o santo de cabeça para baixo, afogam-no na banheira... Indago a mim mesma por que ele ainda se dispõe a encontrar marido para moças que impingem tamanho calvário ao pobrezinho... Deve ser por vingança!


Zelo pelas minhas imagens, não desvisto um santo para vestir outro, mas não exagero no desvelo : quando a esmola é muita, o santo desconfia.


Santa tietagem explícita, Batman! diria o garoto prodígio de Gotham City.


Ledo engano: é que o santo faz o milagre, mas o milagre não faz o santo.

domingo, 9 de novembro de 2008

De quatro


De quatro Napoleão perdeu a guerra, após a Batalha de Waterloo, atingido de raspão por um tiro.

O número 4 representa plenitude, totalidade, abrangência universal, o concreto, aparente e matemático. Contrapõe-se ao 3, transcendental, espiritual, abstrato e divino. Platão resumiu a diferença entre os dois: “ Se o ternário é o número das idéias, o quaternário é o número da realização das idéias”.

No século V a.C Hipócrates, Pai da Medicina Científica, lançou a teoria dos quatro humores – sangue, bile negra, bile amarela e linfa. Desmistificando a crença de que maus espíritos eram causadores de todos os males, justificava os quatro tipos de temperamento – sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Para ele, quatro eram os órgãos principais ( coração, baço, fígado e cérebro) e a função do médico era promover o equilíbrio entre eles. Dos quatro humores da Antiguidade, saltamos às quatro bases da Biologia Molecular. O DNA é formado por adenina, timina, guanina e citosina, cada base formada por sua vez, por quatro elementos químicos – carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio. Se na Antiguidade a palavra-chave era humores, nos próximos anos a palavra de ordem em medicina deve ser Ética. Clonagem, eutanásia, células tronco são assuntos tão controversos que a Ética deverá ser o divisor de águas da profissão. Para emitir juízos éticos, utilizamos os quatro quadrantes cerebrais: percepção, reflexão, conclusão e ação. Afinal, como já dizia Hipócrates “A vida é breve, a ocasião instantânea, a experiência incerta e o juízo difícil”.

Na natureza, são quatro os elementos – fogo, terra, água e ar -, os grandes oceanos – Atlântico, Pacífico, Índico e Ártico – e as qualidades táteis – frio, seco, quente, úmido. Os pontos cardeais nos orientam a localização e os pontos da pirâmide (contando com o centro) nos energizam. Assim, bradamos nossas verdades aos quatro ventos, pelos quatro cantos da Terra.

Quatro indica base, sustentação, estabilidade, equilíbrio e segurança. São quatro as pernas da cadeira, os pilares de sustentação, os membros do corpo humano e as patas nos animais. Para sentir segurança, nada melhor que carros de quatro portas, com tração nas quatro rodas.

13 é número da sorte, cuja soma dos algarismos 1 e 3 é quatro. Sorte também tem quem encontra um trevo de quatro folhas. O Cruzeiro do Sul tem quatro estrelas e nos leva ao Céu. São quatro as operações matemáticas básicas ( soma, subtração, divisão e multiplicação), e as dimensões ( largura, comprimento, altura e tempo). O quadrado tem quatro lados, quatro vértices, quatro arestas. Quatro são as ciências fundamentais - aritmética, música, astronomia e geometria – e, na Mecânica Quântica, também as partículas de força – Gravidade, Eletromagnetismo, Nuclear Fraca ( radioatividade) e Nuclear Forte.

Dizem que quatro coisas nunca voltam: a pedra atirada, a palavra dita, a ocasião perdida e o tempo passado. Dos quatro gigantes da alma, três são obstáculos – Medo, Ira e Dever –, neutralizados pelo Amor. No Antigo Testamento, Deus fala dos quatro juízos sobre Israel. O Budismo é baseado em quatro nobres verdades: a Vida é sofrimento; o sofrimento vem do apego; o apego pode ser superado; há um caminho para isso. Quatro são os discursos de Aristóteles – poética, retórica, dialética e lógica.

Quatro estações do ano: inverno, tempo de recuperação e hibernação, primavera, tempo de brotos, verão, auge do sol e outono, início do deflorescer. O mesmo padrão cíclico se repete nas fases da lua e nas fases da vida: infância, adolescência, maturidade e velhice. A licença-maternidade dura quatro meses na legislação brasileira e é por volta da quarta década de vida que homens e mulheres refletem sobre o passado e redefinem a rota para o futuro. Quem nunca ouviu falar da Idade do Lobo, quando homens dormem com vovozinhas e sonham com Chapeuzinho Vermelho? Eleições presidenciais, Copas do Mundo e anos bissextos ocorrem a cada quatro anos.

Há algum tempo perdi a confiança em presidentes que nada vêem, nada sabem e que têm somente quatro dedos em uma das mãos.

Para Henry Mencken, a principal diferença entre o homem e a mulher é que “ Um homem perde o senso de orientação após quatro drinques e uma mulher, após quatro beijos”. Há controvérsias : já não se fazem mais mulheres como antigamente e o fígado anda muito resistente aos destilados...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Mea culpa

A barriga está enorme, as pernas incham, você suspira e anseia pelo nascimento. O bebê nasce. E chora dia e noite. Zumbi, você pensa que talvez se não lhe amamentasse tão amiúde, ele se acostumaria ao jejum e não teria força para esgoelar-se. Você só quer escapar dali. Até saudades do chefe mandão você sente...

Na volta ao trabalho, a nenê berra, não alimenta bem. Você se culpa : se não a paparicasse tanto, talvez ela não sentisse a sua falta. Você a acompanha à distância : quem vê os primeiros passos, escuta a primeira palavra é a babá.Perto dos dois anos, você a ouve chamar a babá de mamãe e lamenta a desdita de trabalhar. Se ao menos você pudesse estar com ela mais tempo...

Aos treze, sua mocinha é reprovada e você perde parte da ilusão de que ela é o Ser Perfeito na face da Terra. Pura questão genética : se você tivesse casado com o Eugênio, o nerd que emudecia na sua presença... Você escolheu Marcelo, o “Belo” : bonito, louco por um rabo de saia, inteligência limitada ( limítrofe?). Aos quatorze, a menina que você imaginou top model da Ford, alimentada a geléia real, faz o tipo hippie : rosto lavado e sem pintura, saião, rasteirinha, cabelo despenteado. Vá se queixar ao bispo : quem falou sobre Woodstock e levou o dvd do musical Hair para casa?! Na festa de quinze anos, ela dança a valsa de pé no chão, sozinha no salão, ao som de “Lucy in the sky with diamonds”. Quem apresentou os Beatles para ela?!

Um dia ela comunica que vai estudar Comunicação Social. E você pensa em todo o danoninho – cálcio, ferro, vitaminas – da infância. Desperdiçado, assim como o seu sonho de ter a filha presidente de multinacional. Foi você quem estimulou a criatividade, financiou as aulas de teatro e dança! E ela apresenta, de uma só vez, o namorado guitarrista de banda, o rabo de cavalo dele e a tatuagem no seio dela. Quem falou a ela sobre biodiversidade, equidade social e liberdade de expressão?!

Aos vinte e dois, você tem um piripaque quando ela quer dormir com o namorado em casa : o estímulo para reunir os amigos na sua casa para escapar da violência urbana partiu de você. Você repete o mantra “nunca fiz apologia a drogas ou erva”... Opa, será que a erva de passarinho que parasita a árvore em frente à casa ou a droga do Marcelo, sempre ausente, contam?

Ela faz pós graduação no exterior, a casa fica vazia, você se desmancha de saudades. Resignada, lembra que as aulas de inglês, espanhol e alemão foram úteis, enfim. Aos trinta, ela volta e se instala na sua casa – eis o resultado de tantos anos de mordomias dignas de hotel cinco estrelas. Você dependura Santo Antônio de cabeça para baixo até ela arranjar um marido. Aí ela casa e fica dias sem ligar, sempre ocupada. E você se recrimina : quem mandou fazer dela uma grande amiga? Bem que te avisaram : mãe é mãe, amiga é amiga.

Você anseia pelos netos e os netos chegam. Todo fim de semana. O fim de semana todo. Sua casa é um pedaço de Sarajevo e você se arrepende de ter tratado bem os pirralhos da primeira vez. Aí ela se separa e volta para sua casa de mala, cuia e dois curumins. Só até tudo se acertar. Sua casa agora é uma oca, você perdeu o posto de cacique. Você apela para Tupã.

Então você repassa toda a sua vida para entender onde foi que errou. O erro foi do destino que não te fez mãe judia. Aquela sim, teve muita sorte : um filho admirado por todos, pleno de virtudes... um pouco rebelde, é certo, mas isso era problema do Pai, com quem voltou a morar aos trinta e três anos. Daquele sim, dava gosto ser mãe... Filho bom foi Jesus Cristo!

Você considera a possibilidade de fugir de casa para morar com os índios numa tribo amazônica.

domingo, 26 de outubro de 2008

Tem gente!

Corro o risco de ser taxada de polêmica e insensível, eu sei, mas a exploração do caso de Santo André já extrapolou todos os limites aceitáveis. E está dando nos nervos.

Tem de tudo neste mundo: gente que se alia a namorado para dar cabo dos pais, gente que joga a filha pela janela, gente que promove sessão particular de extermínio na sala de cinema, gente que mata o objeto de sua paixão insana...

A questão é que tem muita gente no mundo. Gente fazendo de tudo, bem embaixo dos nossos narizes. Tem gente que sofre e gente que comercializa tragédias. Gente crédula e gente que abusa da confiança. Gente que faz e gente que senta em cima do próprio rabo para criticar. Gente que cai feio e gente que ri de videocassetada. Gente que batalha pelo pão de cada dia e gente que incita a fofoca, se alimentando da batalha alheia. Gente que bateia e gente que tampa o sol com a peneira.

Não foi noticiado, mas tem gente solitária que dá boa noite ao William Bonner por não ter com quem conversar. Gente se pintando de verde para ganhar a proteção dos ecologistas. Gente que come o pão que o diabo amassou. Gente, igual a você e a mim, que, literalmente, morre de fome. Aos milhares. Todos os dias.

Tem gente matando um leão por dia - a beliscão. Tem gente, em tempo de vaca magra, que se vira para a esquálida não ir pro brejo. Tem gente fazendo das tripas coração bem ao lado da gente.

Tem gente mais folgada que colarinho de palhaço e gente apertada como sardinha em lata. Tem gente mais perdida que freira em zona e gente louca para se perder. Tem gente que acha que campanha política tem que ser suja como pau de galinheiro. Tem gente que aceita que candidato sujo cante de galo.Tem gente que dá azar e gente que despreza a sorte que tem. Gente se fingindo de rico e gente se passando por pobrezinho. Gente que se doa ao bem e gente que vende a alma ao diabo.

A coisa anda mais feia do que rascunho do mapa do inferno - de cabeça para baixo. Minha avó dizia que, se o mundo fosse bom de verdade, o Dono morava nele. Mas gente que pensa escolhe o tipo de gente que quer ser. E o tipo de informação que quer ler, ouvir e comentar.

E não venham bater à minha porta contando as agressões que Liso sofreu ao ser preso, o passado do pai de Eloá, o que Nayara vestia ao sair do hospital. Tampouco quero saber da herança de Suzanne ou como Mateus e Alexandre passam os dias na cadeia. O recinto está ocupado. Aqui dentro tem gente. Gente que tem mais o que fazer.