quarta-feira, 20 de abril de 2011

vai-e-vem-vai-e-vem


( por Márcio Ares Silva)



Penso um poema e ele vai embora.
Algum mar distante naufraga meu invento, embarcação de muitas rotas.
O que tenho à mão é essa coisa de dentro
que tanto dói cá fora
a idade das almas, a dor da minha gente,
saber efêmero o entendimento dos olhos

Traduzindo o que se é visto, eu escrevo as horas.
Tomo o leme do meu barco e o conduzo para além do que me devora.
Um monstro de versos tristes, e dissonante fome, força a retina da proa, displicente,
e minha mão se dobra a querer um giz, um mapa, um caminho qualquer
para tornar ao lugar em que os olhos viram a insuspeita margem, ilha, farol,
gente capaz de um sorriso onde se prove
que viver ainda seja qualquer coisa boa, uma linha além do continente
um poema que não tenha pressa, mas que não tarde sempre
porque os versos que navegam nossos olhos,
que atravessam-nos feitos as terras novas,
sãos os mesmos olhos que se vão com o tempo

                                                                            Márcio Ares Silva  abril/2011
.
Márcio Ares, poeta de talento e companheiro de viagem solidário ( desses que finge não reparar as lágrimas teimosas que escorregam do olho da gente com a poesia do Mia Couto) fez-me um elogio ao que   respondi "são seus olhos, querido". Menos de 10 minutos depois ele me enviava por e-mail o poema acima, seguido da nota abaixo:


para Paula, um pouco de enjôo, alegria, viagem, lamento

Paula,
Assim que você respondeu ao meu insulto, ao elogio se quer, talvez, em melhor modo, falando que “são meus olhos, querido”, pensei, entre o cansaço e a falta de sono, eis aí o barco para um poema. Coisa natural a quem retorna do país das caravelas e grandes descobrimentos. Mas o poema vinha e não vinha. Então escrevi isto.

Serão sempre os seus olhos, meu Capitão.
.

3 comentários:

Adriana Alves disse...

Que texto lindo... cheio de reflexões e bem cuidado. Abraços, Adriana.

Leonardo B. disse...

[esse mistério da palavra, como da água nas fragas do mundo, que para muitos são invisíveis de tão profundas, e para outros mera nascente, já quase foz]

um imenso abraço,
duplo abraço,


Leonardo B.

MIRZE disse...

Belíssimo poema!

Traz à tona o ir e vir de palavras, idéias, fonte e fim de túnel.

Fantástico!

Mirze